Congresso Internacional “Palavras traiçoeiras: notícias falsas, censura e o indizível”

Departamento de Línguas e Culturas, Universidade de Aveiro

23-25 de outubro de 2019

A emergência recente das preocupações em torno das “fake news” é, de certo modo, uma consequência da importância atualmente atribuída ao poder da opinião pública. Mesmo em regimes democráticos, a vontade de manipular faz-se sentir. Na verdade, não há nada de novo no ato de mentir, deturpar, ofuscar ou menosprezar informações indesejáveis, estratégias estas que vêm sendo adotadas, há muito tempo, tanto por regimes democráticos como por regimes não-democráticos. Os conhecidos jornais Pravda e Izvestia, por exemplo, foram fontes icónicas de “fake news” sancionadas pelo Estado e os seus equivalentes modernos continuam a operar hoje em dia. Onde radica, então, a diferença entre antes e depois? Não será o modo como nos mantemos informados que mudou? Do ponto de vista filosófico, estamos familiarizados com a ideia de que vivemos na era da pós-verdade e de que toda a perceção é relativa. Na prática, estamos a ser bombardeados com informação excessiva, que vem ter connosco avassalando-nos e atingindo-nos vertiginosamente. Acresce ainda o facto de esta informação não estar demasiadamente preocupada com a credibilidade das fontes, nem com a verificação dos factos. Na verdade, formam-se opiniões e tomam-se decisões políticas com base no apelo à emoção, aspeto este que as fontes tradicionais de autoridade têm sido incapazes de combater eficazmente, uma vez que os novos meios de comunicação social transformaram, não só, o nosso acesso à informação, como a confiança que nela depositamos. Além disso, o culto das celebridades tem instabilizado a noção do que constitui notícia de interesse público e um largo leque de profissionais decide qual a informação que deverá vir a lume.

A par da manipulação da informação, o controlo da liberdade de expressão e da liberdade artística manifestou-se de diferentes modos ao longo do tempo. Religião e política estiveram historicamente no centro da ação censória, embora a vigilância se tenha progressivamente distendido, tendo-se procurado levar a cabo, com frequência, a imposição de modelos sociais, de programas culturais ou mesmo de orientações estéticas. Os processos de autocensura não deixaram, no entanto, de se mostrar como caminhos alternativos à implementação das estratégias interditivas da palavra, desde o recuo da própria possibilidade de verbalização à perscrutação dos limites daquilo que é possível dizer. Deste modo, a repressão aguçou naturalmente o engenho, pelo que a codificação da expressão e o desenvolvimento de certas retóricas de resistência às interdições impostas se volveram em recursos mais ou menos bem-sucedidos de fuga à censura.

A abolição oficial da censura nos regimes democráticos não a erradicou por completo e as pressões sociais, religiosas, culturais, diplomáticas e mesmo económicas podem ter (e muitas vezes têm mesmo) um efeito repressivo. Por outro lado, a chamada censura corporativa é uma realidade não-oficial que afeta a arte, o comércio e os media: a tentação de silenciar o não-desejável não desapareceu.

São inúmeros, pois, os modos de silenciamento do dizer (até pela tentação multidisciplinar da própria dinâmica de silenciamento da voz ou da palavra do outro), congregando aproximações disciplinares a domínios como as ciências da linguagem, a antropologia, a sociologia, os estudos literários e os estudos de tradução, entre outros. A importância da impossibilidade da palavra no desenvolvimento da globalidade dos fenómenos comunicativos (gerando ou não modalidades de resistência ao seu intuito ambíguo ou manipulador) é, assim, uma realidade que, desde meados do século XX, tem ganho progressivamente terreno no seio das disciplinas já referidas, que recolhem da lição romântica do indizível uma espécie de sabedoria generalista capaz de sinalizar, para cada uma delas, a fratura existente entre o impulso de verbalização e as muitas barreiras que se interpõem à sua efetivação discursiva.

Neste âmbito temático, acolhemos propostas de comunicações dentro dos tópicos e subtópicos seguintes:

Notícias Falsas

  • Epistemologia e verdade
  • Informação na idade dos media sociais, media tradicionais em crise
  • Populismo, demagogia e o desafio à democracia
  • Infotainment e os seus descontentamentos
  • Ciência, pseudociência e estatística

Censura

  • Repressão e ideologia
  • Censura e retóricas de resistência
  • Censura e auto-censura na criação artística
  • Censura e auto-censura na tradução e interpretação
  • Censura corporativa

O Indizível

  • Tabu, segredo e outras interdições
  • Políticas e poéticas do indizível
  • Entre línguas e culturas: tradução e desencontros
  • Tradução e manipulação
  • Silêncio e (in)comunicabilidade

WEBSITE DO EVENTO

- rodrigo

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